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terça-feira, 2 de maio de 2017

Quindims na portaria - Martha Medeiros


"Estava lendo o livro de Paulo Hecker Filho, Fidelidades, onde, numa de suas prosas poéticas, ele conta que, antigamente, deixava bilhetes, livros e quindins na portaria do prédio de Mário Quintana 'para estar ao lado sem pesar com a presença'. Há outras histórias e poesias interessantes no livro, mas me detive nessa frase porque não pesar os outros com nossa presença é um raro estalo de sensibilidade.

(...) Afinal, todo mundo gosta de carinho, todo mundo quer ser visitado, ninguém pesa com sua presença num mundo já tão individualista e solitário. Ah, pesa. Até mesmo uma relação íntima exige certos cuidados. Eu bato na porta antes de entrar no quarto das minhas filhas. Eu pergunto pra minha mãe se ela está livre antes de prosseguir com uma conversa por telefone. Eu não faço visitas inesperadas a ninguém, a não ser em caso de urgência.

(...) Pessoas estão jantando. Pessoas estão preocupadas. Pessoas estão com seu blusão preferido, aquele meio sujo e rasgado, que elas só usam quando ninguém está vendo. Pessoas estão chorando. Pessoas estão assistindo a seu programa de tevê favorito. Pessoas estão se amando. Avise que está a caminho.

(...) Adoro e-mails justamente porque são sempre bem-vindos, e posso retribuí-los sabendo que nada interromperei do lado de lá.

Nem se discute que o encontro é sagrado. Mas é possível estar ao lado de quem a gente gosta por outros meios. Quando leio um livro indicado por uma amiga, fico mais próxima dela. Quando mando flores, vou junto com o cartão. Já visitei um pequeno lugarejo só para sentir o impacto que uma pessoa querida havia sentido, anos antes. Também é estar junto. Sendo assim, bilhetes, livros e quindins na portaria não é distância: é só um tipo de abraço."

Martha Medeiros ("Quindins na portaria", pág. 17, do livro "Montanha-Russa")

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